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Crianças na berlinda: Mortalidade infantil cresce no Brasil

A ausência de saneamento é determinante no adoecimento e morte de adultos e, principalmente, crianças. O saneamento básico, que inclui, além do esgotamento sanitário, o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações de abastecimento de água, limpeza urbana, manejo de resíduos sólidos e drenagem de água pluviais urbanas, é, portanto, uma condição indispensável à promoção da saúde.
Falta de saneamento básico: um dos principais
motivos da mortalidade infantil
Segundo as Nações Unidas, há no mundo, 22,5 bilhões de pessoas que ainda não contam com instalações sanitárias adequadas. Um bilhão de pessoas não tem banheiro em suas casas. A Organização Mundial de Saúde estima que doenças como diarreias, leptospirose, hepatite A e cólera são responsáveis pela morte de 1,5 milhões de crianças menores de 5 anos. 
Um país que não ampara seus cidadãos nas suas necessidades mais básicas, está fadado ao colapso.
De todas as estatísticas que compõem a imagem de um país e apontam seu lugar no futuro, a mais reveladora é a taxa de mortalidade infantil, algoritmo frio que descreve a tragédia das crianças que morrem antes de completar 1 ano. Quanto mais o ponteiro desse marcador recua, mais significa que um país avançou. Quando ele sobe, porém, expõe o exato oposto: a realidade de uma nação que falhou no dever mais básico, o de garantir o direito à vida, e que está andando para trás. O Brasil, lamentavelmente, passou a se encaixar no segundo caso. A Revista VEJA desta semana traz uma extensa e arrasadora reportagem sobre mais uma triste realidade do nosso país:  A taxa de mortalidade infantil, que só caía desde que começou a ser medida ano a ano, em 1990, mudou de direção no cálculo mais recente, de 2016: subiu 5% — de 13,3 para 14 em cada 1000 nascidos vivos. 
Parece pouco. Mas esse "pulinho" do índice, combinado com a estagnação prevalente nos últimos anos, acende um alarmante sinal vermelho na acidentada trajetória brasileira rumo ao mundo desenvolvido. Não podemos deixar de correlacionar este catastrófico crescimento à situação de instabilidade econômica, gerada pela alarmante onda de corrupção que assolou o país nos últimos anos. Trocando em miúdos; a culpa é sim do governo! Não apenas deste que está aí, mas, também de seus  antecessores. A ocorrência de baques econômicos em um país desenvolvido não influi em sua taxa de mortalidade infantil porque o sistema de saúde funciona bem e não se desfaz com um sopro. Já em países como o Brasil, com um SUS precário e agonizante, qualquer vento adverso transforma dificuldade em tragédia. Pesquisa do Datafolha mostra que 55% dos brasileiros consideram o sistema ruim ou péssimo e sete em cada dez relataram dificuldade em marcar consulta com especialistas. Com recursos mutilados, a saúde pública perdeu 24 mil leitos de internação entre 2010 e 2015 (durante os governos Lula e Dilma).
Ilhéus: segunda cidade com maior índice de
mortalidade infantil do Brasil, perde apenas para
Aquiraz, no Ceará
Nesse caldeirão de mortalidade, não podemos deixar de citar o triste caso de Ilhéus - Bahia.
Detentora do segundo pior índice de mortalidade infantil do país — 24,25 por 1 000 nascidos —,  a cidade possui, na periferia, condomínios populares lotados, casas de madeira sem ventilação nem higiene e crianças brincando na rua em meio ao lixo. Exatamente as condições propicias, como citamos no começo deste artigo, para o crescimento de um índice tão triste.
Mas a coisa não para por aí. A situação em Ilhéus ainda é bem pior. A única maternidade - Santa Helena -  não tem UTI neonatal. Isso por si só já seria chocante. Porém o circo de horrores continua. As gestantes do município só dispõem de 35 vagas, número resultante da redução de leitos. Em 2012 eram 42. O dado gritante é que, embora no mesmo período a média de partos mensais tenha passado de 280 para 350, a cidade ainda sofreu a perda de leitos. O mais irônico no caso de Ilhéus é que o prefeito da cidade é médico. Triste!
Voltando à reportagem da VEJA, é impossível não se emocionar ao lermos a declaração do coveiro Carlos Novais que ao apontar para um pedaço de terra entre os túmulos e a estrada, diz: “É aqui que a gente arruma um lugar para as crianças, porque não tem mais espaço no cemitério, não”.
E daí em diante, o retrato sobre a situação das crianças em Ilhéus fica ainda mais alarmante.
Como não há período integral nas escolas da cidade, as crianças só têm acesso a um lanche irrisório (biscoito e suco na maioria das vezes) no meio da manhã. Entra em cena outro fator preponderante no avanço do crescimento da mortalidade infantil: a desnutrição. A taxa de desnutrição crônica no Brasil no ano passado, segundo a Fundação Abrinq, foi de 13,1% entre crianças de até 5 anos, um aumento em relação aos 12,6% de 2016. Desnutrição e mortalidade infantil andam de mãos dadas, porque a criança malnutrida é mais vulnerável a doenças. E não e só isso: Adultos desnutridos também afetam o desenvolvimento dos filhos. A má nutrição da mãe pode resultar em crianças menos saudáveis pela vida inteira. 
Ilhéus, a terra da Gabriela,  só perde por pouco, para o município de  Aquiraz, no Ceará. Lá a mortalidade infantil atingiu a cifra de 24,90 mortes para cada mil crianças nascidas vivas.
Iniciativas do governo para frear a mortalidade na infância estão desmoronando junto com o SUS. O Programa Saúde da Família, que faz atendimento de base, perdeu 1,5 bilhão de reais entre 2015 e 2016. A verba do Rede Cegonha, que orienta mulheres durante a gestação, encolheu 18%. Isso para não falar em outros programas cortados.
Diante de um retrato tão caótico, como os governantes podem encher a boa e profetizar que as crianças são o nosso futuro, quando eles não cuidam nem delas no nosso presente?
Como podem dizer que estão investindo no futuro do país quando não são sequer capazes de exercer com competência suas funções administrativas, garantindo o mínimo de condições dignas de vida para os cidadãos? 
Qual futuro os governantes afirmam
garantir para nossas crianças?
Governantes dizem que esgoto é obra que não se vê e não dá votos. Brincam com coisa séria, porque a autoridade, assim como lideranças empresariais e da sociedade não priorizam a questão, são corresponsáveis pela continuidade desta situação degradante e insalubre. O Brasil se tornou um lugar onde tudo aquilo que é sério e imprescindível deixou de ser prioridade na gestão pública. Afinal, um local onde políticos se importam mais em ser celebridades, há muito que já deixou de ser uma lugar de administração séria. Importante ressaltar que não se pode admitir o uso dessa calamidade como pretexto para obras superfaturadas ou a privatização da oferta de serviços, transformando uma necessidade e direito em mercadoria acessível só a quem pode pagar. Chega de ser lesados e ainda termos que pagar a conta.
Triste pelo Brasil!
Triste por Aquiraz!
Triste por Ilhéus!


Links

Link para reportagem da revista VEJA
https://veja.abril.com.br/revista-veja/alerta-vermelho/


Link para estatísticas do Ministério da Saúde
http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php?area=0205&id=6936&VObj=http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sinasc/cnv/nv


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©2007 '' Por Elke di Barros