segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Polêmica das notas de redação do ENEM 2025 acende debate sobre critérios, ensino e uso de IA


A divulgação das notas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2025 trouxe à tona uma das versões mais acaloradas de debates sobre a prova de redação em anos recentes: a redução no número de notas máximas, o endurecimento de critérios avaliativos e a crescente discussão sobre inteligência artificial (IA) no processo de correção.

Os resultados oficiais foram liberados ontem pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em conjunto com o Ministério da Educação (MEC), que informou que milhões de candidatos já podem consultar suas pontuações — inclusive da redação — na Página do Participante.

Professores e alunos nas redes sociais apontaram que as notas de redação em 2025 ficaram mais baixas, especialmente no topo da distribuição, com um número histórico menor de notas máximas comparado às edições anteriores. Segundo levantamentos independentes, a edição de 2024 registrou o menor número de redações com nota 1.000 em uma década, esforço deliberado do Inep em coibir textos engessados e fórmulas prontas. Esse ano, tudo indica que as notas serão menores ainda.

A repercussão foi imediata nas comunidades educacionais: muitos estudantes questionaram se a prova realmente avalia pensamento crítico e criatividade, ou se privilegia a aplicação rígida de um modelo de escrita que muitas escolas brasileiras — públicas e privadas — insistem em ensinar como fórmula padronizada. Esse estilo “decorado” de produção textual, praticado durante anos em cursinhos e colégios, agora parece render menos frente às rubricas mais exigentes, que valorizam repertório significativo, argumentação original e coerência profunda.
No meio dessa polêmica, surgiu uma nova pergunta: será que redações já estão sendo corrigidas por inteligência artificial? A resposta oficial é não — até o momento, a correção formal das redações do ENEM segue sendo feita por avaliadores humanos contratados pelo Inep e revisada por múltiplos pares quando há divergências.

Contudo, nos últimos meses, o ministro da Educação, Camilo Santana, comentou abertamente que o uso de tecnologias baseadas em IA para avaliação é uma tendência sem volta e que, “daqui a pouco, vamos conseguir corrigir com IA”. Ele afirmou ainda que o avanço tecnológico na educação é irreversível e que ferramentas como essa farão parte do futuro do exame.

Além disso, em 2025 o MEC lançou o aplicativo MEC Enem — o Simuladão do Enem, que inclui correção automatizada de redações com IA, simulados completos, trilhas de estudo e um assistente virtual para apoiar os candidatos na preparação. A ferramenta permite que o estudante escreva ou fotografe textos e receba, em cerca de 60 segundos, uma pontuação estimada e sugestões de melhoria.

Essas iniciativas alimentam o debate: alguns influenciadores e professores na internet afirmam que ferramentas automatizadas podem estar influenciando a percepção de rigor e até mesmo confundindo a preparação dos estudantes, enquanto outros veem valor em obter feedback rápido sobre textos de prática.



Discussões em fóruns e redes sociais refletem esse movimento. Muitos estudantes relatam que ferramentas de IA aplicadas a textos de treinamento dão notas variadas — às vezes muito distantes das expectativas — e questionam se essas avaliações “automatizadas” representam com fidelidade a lógica oficial de correção do ENEM.

Críticos da atual metodologia do ENEM afirmam que o exame institucionalizou, ao longo de décadas, um tipo de redação que muitas escolas passaram a ensinar como receita: introdução com repertório, dois ou três argumentos com citações padrão e conclusão com proposta de intervenção. Agora, com critérios mais rígidos que penalizam textos “engessados”, a mesma fórmula que foi ensinada exaustivamente parece estar sendo punida, deixando muitos estudantes frustrados.

Esse conflito entre ensino e avaliação coloca em evidência uma questão mais profunda: o ENEM realmente estimula escrita crítica e criativa? Ou ele continua premiando a técnica superficial decorada em sala de aula?

Especialistas em educação alertam que, mesmo com ferramentas de IA emergentes, o exame não pode se desvincular de sua missão de avaliar a capacidade de os alunos expressarem ideias complexas com clareza, argumentação sólida e conectadas ao contexto social. A IA pode ser um instrumento de apoio, mas não substitui a mediação pedagógica humana nem a necessidade de uma formação que vá além de “modelos prontos”.



À medida que o Brasil avança para edições futuras do ENEM, esse debate — sobre tecnologia, critérios avaliativos e práticas de ensino — tende a se intensificar, envolvendo educadores, estudantes e formuladores de políticas públicas.

Conclusão: a queda nas notas de redação em 2025 é mais do que um número: é um reflexo de tensões profundas entre como a escrita é ensinada nas escolas, como é avaliada pelo exame e qual papel a tecnologia deve desempenhar nesse processo.

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