sábado, 10 de janeiro de 2026

Protestos se intensificam no Irã e expõem maior desafio ao regime autoritário em anos


O Irã enfrenta, há pelo menos duas semanas, uma onda de protestos antigoverno que se espalhou por todo o país e já é considerada o mais sério desafio ao regime autoritário islâmico desde as manifestações de 2022. A resposta das autoridades tem sido endurecer o controle interno: na quinta-feira (8 de janeiro), data que marcou a maior noite de mobilizações até agora, o governo cortou o acesso à internet e às linhas telefônicas, isolando praticamente o país do mundo exterior.

Organizações internacionais de direitos humanos estimam que mais de 500 pessoas morreram e cerca de 10.600 foram presas desde o início dos protestos. O aumento da repressão provocou reações no cenário internacional. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que poderá retaliar caso as forças de segurança iranianas intensifiquem o uso da violência contra civis. Em resposta, o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, acusou Washington de incitar a instabilidade e disse que Trump deveria “cuidar do próprio país”.

Da crise econômica à contestação do regime

As manifestações tiveram início nos bazares de Teerã, tradicionalmente um dos pilares de apoio à República Islâmica, como reação à inflação fora de controle. O estopim foi a alta abrupta nos preços de itens básicos, como óleo de cozinha e frango, que subiram drasticamente de um dia para o outro. Em alguns casos, produtos desapareceram completamente das prateleiras.

A situação se agravou após o Banco Central encerrar um programa que permitia a determinados importadores acessar dólares a uma taxa subsidiada. A medida elevou custos, levou comerciantes a fechar lojas e impulsionou protestos que rapidamente ultrapassaram a pauta econômica, transformando-se em atos generalizados contra o regime.

O governo, liderado por reformistas, tentou conter a insatisfação com a promessa de transferências diretas mensais de cerca de US$ 7 por pessoa, iniciativa que se mostrou insuficiente para frear a mobilização popular.

Mobilização nacional e repressão

Os protestos já alcançaram mais de 100 cidades e avançaram para províncias historicamente marginalizadas, como Ilam e Lorestão, no oeste do país, regiões marcadas por pobreza e tensões étnicas. Em algumas localidades, manifestantes incendiaram ruas e passaram a entoar palavras de ordem como “Morte a Khamenei”, um desafio direto à mais alta autoridade religiosa e política do Irã.

A agência estatal Fars informou que 950 policiais e 60 integrantes da milícia Basij ficaram feridos, sobretudo em confrontos nas províncias ocidentais. Segundo o veículo, autoridades alegam que parte dos manifestantes estaria armada, acusação frequentemente contestada por organizações independentes.

Já a ONG Iran Human Rights NGO (IHRNGO), com sede na Noruega, relatou que ao menos 45 manifestantes morreram, entre eles oito crianças, desde o início dos atos. Centenas teriam ficado feridos e mais de 2.000 pessoas foram detidas, segundo a entidade.

Um país sob tensão

Analistas internacionais avaliam que a atual onda de protestos combina crise econômica profunda, desgaste político e tensões sociais acumuladas, criando um cenário volátil. A lembrança dos protestos de 2022, desencadeados pela morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia religiosa, permanece viva e reforça o simbolismo das manifestações atuais.

Enquanto o governo aposta no controle da informação e na repressão para conter a mobilização, cresce a pressão interna e externa por respostas que vão além da força. O desfecho permanece incerto, mas o recado das ruas é claro: a estabilidade do regime iraniano enfrenta seu teste mais severo em anos. O povo quer retomar ass rédeas de seu país.

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